A pandemia foi o que eu precisava para terminar meu livro. Se tem algo que eu acho que todos aprendemos com essa história toda é que é preciso se dedicar a fazer algo que amamos. Do fundo do coração. Com um senso agudo de servidão à humanidade e um desejo de partilha, que é o que nos faz crescer. Ainda mais nos tempos atuais.

Eu tinha decidido que seria escritora em 2011. Larguei tudo e fui me refugiar em Paris. Agora em 2022, isso aconteceu há 11 anos. E desde então, ano após ano, a vida testou cada limite meu.

Primeiro, eu comecei sentir dores no peito, a ter alucinações e a acreditar que talvez estivesse enlouquecendo. Era a ideia do Cidade das Mandalas entrando na minha cabeça. A Kundalini ainda não se chamava assim e, na verdade, ela só foi me contar o seu nome cinco anos depois, quando todos os dias eu ia escrever num café, já aqui na Bélgica, das 7 às 8, antes de começar a trabalhar. 

Depois, um amigo meu dizia que eu tinha que escrever para extravasar a dor que três médicos em Paris diagnosticaram como angústia. Eu nunca tinha ouvido falar daquilo, mas bom! Eles são os profissionais, não? Seguindo os conselhos do meu amigo, eu comecei a escrever para expurgar. Uma parte da dor passou quando eu transferi ao papel os meus sentimentos. Era o feto da história crescendo. 

Dois anos depois, eu me inscrevi no curso à distância (o meu último ano de mestrado) porque para mim era uma perda de tempo incomensurável de ir até a faculdade. Eu preferia ir ao Starbucks e investir cada segundo que eu podia no meu livro. Neste momento, eu já tinha entendido que aquilo evoluiria até virar um livro e eu não tinha tempo a perder. 

Durante aquele ano de 2014 eu desejei poder me dedicar à atividade da escrita a 100%. No ano seguinte, o universo me agraciou com essa possibilidade quando eu mudei-me para a Bélgica com o meu marido. 

De 2016 até 2017 eu ia todos os dias ao café antes do trabalho (sim, eu tive que voltar a trabalhar, porque o livro não saía e o meu dindin estava acabando ihihih), eu trabalhei todos os dias e por vezes até de finais de semana, neste livro. 

Ao final de 2017, eu achava que a hora tinha chegado de parir o livro. Tracei um calendário (similar àquele que eu apresento em Como escrever um livro em 3 meses), mas a vida tinha outros planos para mim. 

A força de trabalhar todos os dias e nunca descansar o braço, eu perdi o movimento do braço direito e fui obrigada à interromper a atividade de escrita durante quase três anos. Foi um momento difícil. Eu não sabia se conseguiria volta um dia a escrever. Em 2019, cansada de dizer às pessoas que eu estava a escrever um livro há mais de seis anos e nunca terminar, eu busquei ajuda profissional entre os melhores da língua portuguesa reconhecidos no mercado internacional. Foi o primeiro passo sério que eu dei desde que em 2011, no calor do impulso, eu joguei tudo para os ares e fui embora. Apesar de ter convivido com escritores, cineastas e cenaristas durante anos em Paris, de ver de perto o dia-a-dia destas pessoas, eu pela primeira vez entrei em contato com os profissionais internacionalmente renomados da edição no mercado especificamente brasileiro. A barca mudou de rumo e eu entendi que, se quisesse viver da profissão, como eu pretendia há anos, teria que fazer mudanças drásticas. 

Eu comecei a trabalhar de fato no manuscrito do Cidade das Mandalas e a submetê-lo às críticas desses profissionais que por vezes acabavam com o meu texto. Mas escrever é reescrever não é? Eu tinha crença na força daquele livro, a chama vital daquela história queimava em meu próprio corpo. Eu o tinha escrito com a minha dor, com a minha loucura parisiense e na frieza dos meus orgasmos. Mas foi a tomada de consciência daquele momento de paralisia que eu pude ajustar o compasso da minha atitude na direção da ideia inicial que eu tinha para o livro: ajudar quem estava no mesmo caso. 

A pandemia veio a trazer a tranquilidade de espírito e o espaço mental de que eu precisava para escrever uma história de alguém que acredita firmemente que nós vemos aquilo que somos, que nosso mundo é um reflexo de nós mesmos. E que um padrão de consciência elevado, pode mudar a energia do nosso planeta.  

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