No topo de uma das torres onde subi, eu a encontrei, instalada em seus aposentos, sozinha, contemplativa, pensativa e narcísica. Uma mulher semi-nua, linda e proibida. De um olhar penetrante, determinado e cruel. Tinha uma pele escura, cabelos negros de floresta, olhos pintados e bem escuros.
Era, se humana ou animal, um ser ao mesmo tempo mágico e mortal e, certamente, a senhora deste castelo-prisão. E eu me enamorei dela e do seu segredo. Era uma visão encantada, sedutora para os meus olhos e para quem quer que pusesse os seus nela.
Conforme a mirava, sem conseguir desgrudar o olhar, aproximava-me, inevitavelmente, inteiramente enfeitiçada por aquela visão encantada.
— Bela! — exclamou minha boca silenciosamente.
Não se dera conta de que eu a olhava. A moça mirava-se penetrante num espelho pequenino. Estava despida, trajando apenas as roupas de baixo e sua pele de sol fundia-se ao tecido leopardo das peças íntimas.
Abriu a boca deixando entrever poderosos e brancos dentes caninos. Era uma selvagem.
Não pude deixar de desejá-la, hipnotizada por aquele olhar combinado às curvas do seu corpo e dos seus seios que eu tanto queria. A seriedade dos negros olhos amendoados causava-me temor pois era penetrante e parecia cravar fundo a superfície do espelho no qual ela se mirava.
Com uma das mãos, ela segurava o punhal do objeto, que acariciava com ternura, e com a outra escovava os cabelos lisos, negros e brilhantes que lhe caíam sobre os seios e o ventre, perfeitamente esculpidos no seu corpo jovem.
Não era muito alta, em verdade. Era uma pequena pessoa, mas sua beleza exótica era imponente naquele contexto.
E porque estive hipnotizada pela sua beleza, não percebi a chegada do homem. Ele também possuía uma beleza, embora marcante, grosseira. Segurava nas mãos endurecidas e rígidas um flagelo de couro preto.
Ao chegar beijou-lhe a tez com carinho e respeito.
Ela ajoelhou-se em seguida sob os seus pés enquanto ele acomodava-se no divã no centro do quarto. Tocou-a na cabeça, percorrendo os negríssimos cabelos desembaraçados com carinho. Atardou o toque num fio branco que nascia.
Ela deitou sua cabeça no colo dele e assim permaneceram, silenciosos, durante um momento.
— Eu te amo! — Disse ela, por fim.
— Eu também. — Respondeu ele.
— Por favor, nunca me deixe. — Implorou ela.
— Nunca. — Confirmou ele.
Depois, ordenou à onça que se despisse por completo e que se virasse de costas para ele.
Sob o signo do hábito, a moça obedeceu e ele a chicoteou forte.
Uma vez. Depois muitas.
Apoiando-se contra as paredes, ela suportou cada flagelada que marcou seu corpo animalesco. Em seguida, com um sinal da cabeça, ele indicou as almofadas que salpicavam o chão do quarto. Ali, ela deitou e ele a possuíu, tal qual uma besta. De frente e de costas, por cima e por baixo.
Enquanto a penetrava, gritava e chupava os seus belos seios e o seu sexo.
Ele então mordeu forte um de seus mamilos e arrancou-o. A carne ficou entre os seus dentes e o sangue percorreu-lhe a face.
Ela urrou de dor mas ele não parou e a chicoteou novamente.
Melhor fosse que ela calasse a boca. Aquele era o seu senhor. Ele a tinha colocado no mundo. Ela devia-lhe respeito.
Ao fim de tudo, a mulher apoiou-se no muro e foi escorregando pelo chão. Incapaz de se levantar, ela permanecera prostrada no chão, mutilada pelo amante, mortificada pelo sexo…
Não chorava porque não mais lhe doía o mamilo arrancado.
Ele, em seguida, cuspiu no chão o pedaço que arrancara do corpo dela. Secou as faces molhadas de saliva, sangue e gozo. E retirou-se passando por mim sem me ver.
Esperei que ele estivesse longe para correr para junto dela e ajudá-la, pois a moça estava a ponto de desmaiar.
Não parecia surpresa de minha presença. Ela segurou-me pelo braço, olhou-me profundamente e esvaneceu-se.
Apagou-se como se apaga uma vela.
Fez-se uma fumaça instantânea no ar e seu belo corpo desapareceu não sem que antes eu percebesse, olhando mais de perto, que haviam outras marcas além das inflingidas naquele dia.
Este é um dos primeiros textos que eu escrevi para o meu primeiro livro, Cidade das Mandalas, que você pode encontrar aqui. Embora seja um dos primeiros textos escritos, o texto acima não foi incluído na versão final do livro. Por isso, eu publico a versão em português, que eu nunca trabalhei para integrar no livro. Espero que gostem.



11 respostas para “A Senhora do Castelo por Nayara Lemes”
😊✨ Disponível em português, que bacana.😘
Claro amiga 🤍
🥰📚
[…] A Senhora do Castelo por Nayara Lemes […]
It’s beautiful ❤️
Could we talk for a while nayara
Amei o título do livro! Além disso, esse trecho presenteado por você no blog é deveras profundo e impactante… fiquei tão envolvida, que mergulhei nas palavras e eu visualizava a cena diante de mim. Parabéns!
Olá querida. Que bom saber disso. Vou colocar alguns outros trechos do livro. Um abraço 🤍
Formidável. Amei o texto!
Adorei 🤗
Obrigada Natal! Fico feliz que tenha gostado. Como eu te expliquei ontem, esse texto faz parte do Cidade das Mandalas, mas eu não coloquei no livro 🙂