A Senhora do Castelo por Nayara Lemes

No topo de uma das torres onde subi, eu a encontrei, instalada em seus aposentos, sozinha, contemplativa, pensativa e narcísica. Uma mulher semi-nua, linda e proibida. De um olhar penetrante, determinado e cruel. Tinha uma pele escura, cabelos negros de floresta, olhos pintados e bem escuros. Era, se humana ou animal, um ser ao mesmo…

brown castle under a starry sky

No topo de uma das torres onde subi, eu a encontrei, instalada em seus aposentos, sozinha, contemplativa, pensativa e narcísica. Uma mulher semi-nua, linda e proibida. De um olhar penetrante, determinado e cruel. Tinha uma pele escura, cabelos negros de floresta, olhos pintados e bem escuros.

Era, se humana ou animal, um ser ao mesmo tempo mágico e mortal e, certamente, a senhora deste castelo-prisão. E eu me enamorei dela e do seu segredo. Era uma visão encantada, sedutora para os meus olhos e para quem quer que pusesse os seus nela.

Conforme a mirava, sem conseguir desgrudar o olhar, aproximava-me, inevitavelmente, inteiramente enfeitiçada por aquela visão encantada.

— Bela! — exclamou minha boca silenciosamente.

Não se dera conta de que eu a olhava. A moça mirava-se penetrante num espelho pequenino. Estava despida, trajando apenas as roupas de baixo e sua pele de sol fundia-se ao tecido leopardo das peças íntimas.

Abriu a boca deixando entrever poderosos e brancos dentes caninos. Era uma selvagem.

Não pude deixar de desejá-la, hipnotizada por aquele olhar combinado às curvas do seu corpo e dos seus seios que eu tanto queria. A seriedade dos negros olhos amendoados causava-me temor pois era penetrante e parecia cravar fundo a superfície do espelho no qual ela se mirava.

Com uma das mãos, ela segurava o punhal do objeto, que acariciava com ternura, e com a outra escovava os cabelos lisos, negros e brilhantes que lhe caíam sobre os seios e o ventre, perfeitamente esculpidos no seu corpo jovem.

Não era muito alta, em verdade. Era uma pequena pessoa, mas sua beleza exótica era imponente naquele contexto.

E porque estive hipnotizada pela sua beleza, não percebi a chegada do homem. Ele também possuía uma beleza, embora marcante, grosseira. Segurava nas mãos endurecidas e rígidas um flagelo de couro preto.

Ao chegar beijou-lhe a tez com carinho e respeito.

Ela ajoelhou-se em seguida sob os seus pés enquanto ele acomodava-se no divã no centro do quarto. Tocou-a na cabeça, percorrendo os negríssimos cabelos desembaraçados com carinho. Atardou o toque num fio branco que nascia.

Ela deitou sua cabeça no colo dele e assim permaneceram, silenciosos, durante um momento.

— Eu te amo! — Disse ela, por fim.

— Eu também. — Respondeu ele.

— Por favor, nunca me deixe. — Implorou ela.

— Nunca. — Confirmou ele.

Depois, ordenou à onça que se despisse por completo e que se virasse de costas para ele.

Sob o signo do hábito, a moça obedeceu e ele a chicoteou forte.

Uma vez. Depois muitas.

Apoiando-se contra as paredes, ela suportou cada flagelada que marcou seu corpo animalesco. Em seguida, com um sinal da cabeça, ele indicou as almofadas que salpicavam o chão do quarto. Ali, ela deitou e ele a possuíu, tal qual uma besta. De frente e de costas, por cima e por baixo.

Enquanto a penetrava, gritava e chupava os seus belos seios e o seu sexo.

Ele então mordeu forte um de seus mamilos e arrancou-o. A carne ficou entre os seus dentes e o sangue percorreu-lhe a face.

Ela urrou de dor mas ele não parou e a chicoteou novamente.

Melhor fosse que ela calasse a boca. Aquele era o seu senhor. Ele a tinha colocado no mundo. Ela devia-lhe respeito.

Ao fim de tudo, a mulher apoiou-se no muro e foi escorregando pelo chão. Incapaz de se levantar, ela permanecera prostrada no chão, mutilada pelo amante, mortificada pelo sexo…

Não chorava porque não mais lhe doía o mamilo arrancado.

Ele, em seguida, cuspiu no chão o pedaço que arrancara do corpo dela. Secou as faces molhadas de saliva, sangue e gozo. E retirou-se passando por mim sem me ver.

Esperei que ele estivesse longe para correr para junto dela e ajudá-la, pois a moça estava a ponto de desmaiar.

Não parecia surpresa de minha presença. Ela segurou-me pelo braço, olhou-me profundamente e esvaneceu-se.

Apagou-se como se apaga uma vela.

Fez-se uma fumaça instantânea no ar e seu belo corpo desapareceu não sem que antes eu percebesse, olhando mais de perto, que haviam outras marcas além das inflingidas naquele dia.


Este é um dos primeiros textos que eu escrevi para o meu primeiro livro, Cidade das Mandalas, que você pode encontrar aqui. Embora seja um dos primeiros textos escritos, o texto acima não foi incluído na versão final do livro. Por isso, eu publico a versão em português, que eu nunca trabalhei para integrar no livro. Espero que gostem.

Cidade das Mandalas


11 responses to “A Senhora do Castelo por Nayara Lemes”

  1. Expansão & Percepção avatar
    Expansão & Percepção

    😊✨ Disponível em português, que bacana.😘

    1. Nayara Lemes avatar
      Nayara Lemes

      Claro amiga 🤍

      1. Expansão & Percepção avatar
        Expansão & Percepção

        🥰📚

  2. The Lady in the Castle – Nayara Lemes

    […] A Senhora do Castelo por Nayara Lemes […]

  3. Adarsh G avatar
    Adarsh G

    It’s beautiful ❤️

  4. Adarsh G avatar
    Adarsh G

    Could we talk for a while nayara

  5. Andrea Gondim avatar
    Andrea Gondim

    Amei o título do livro! Além disso, esse trecho presenteado por você no blog é deveras profundo e impactante… fiquei tão envolvida, que mergulhei nas palavras e eu visualizava a cena diante de mim. Parabéns!

    1. Nayara Lemes avatar
      Nayara Lemes

      Olá querida. Que bom saber disso. Vou colocar alguns outros trechos do livro. Um abraço 🤍

  6. Natal Silva avatar
    Natal Silva

    Formidável. Amei o texto!

  7. Natal Silva avatar
    Natal Silva

    Adorei 🤗

    1. Nayara Lemes avatar
      Nayara Lemes

      Obrigada Natal! Fico feliz que tenha gostado. Como eu te expliquei ontem, esse texto faz parte do Cidade das Mandalas, mas eu não coloquei no livro 🙂

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