O que é a voz num texto?

Quando a gente apanha o Harry Potter para ler, (pelo menos comigo foi assim), a gente ouve a voz da autora desde as primeiras linhas. O tom de deboche daquelas casas iguais na Rua dos Alfeneiros… Ou quando você lê A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, eu arrisco dizer que o que fez esse blogueiro tão conhecido foi justamente o fato de ele ter essa voz, que se traduz no seu estilo, tão xucro, tão cru que fala de assuntos tabus, que vão contra tudo o que a gente aprende sempre na vida e que, apesar de tudo, tem uma coloração zen.

Pois, esses são sinais de que o autor tem uma voz. 

Todo escritor que se vê autor no futuro, exercendo essa profissão como maneira de botar pão na mesa, deve primeiro descobrir a sua voz e depois fortalecê-la para que ela seja a sua marca de presença, para que os seus leitores possam reconhecê-lo ao ouvir ou ao ler uma história sua. Isso porque todo texto ou história tem uma origem, no fundo, oral. Lembre-se de que a escrita surgiu depois da fala. E a arte de contar histórias é inerente ao ser humano, ou seja, sempre existiu.

Estou trabalhando num livro único sobre a voz do autor e este livro deve sair no ano que vem. Eu vou mantê-los atualizados sobre as minhas pesquisas.

Se todo autor precisa de uma voz desenvolvida, como encontrar a sua voz?

A sua voz nada mais é do que aquela que fala na sua cabeça constantemente. Não apenas pela sua boca, mas a verdade dos seus pensamentos. Eu me arrisco dizer que quanto mais for dita a verdade do que você pensa, mais a sua voz será ouvida. E por conseguinte, mais o seu leitor será marcado por aquilo que você está narrando.

Nesse sentido, a melhor maneira de desenvolver uma voz que marque é escrever para si, à maneira de um diário. Eu aprofundo mais esse método no meu livro Como escrever um livro em 3 meses.  Para fazer curto, a ideia é a seguinte: você compra um caderno que lhe dê prazer de escrever, ou seja, partindo do pressuposto que você trabalha com bons instrumentos que lhe dêem prazer em fazer o seu trabalho de escrita e simplesmente escreve tudo. 

Enquanto você escreve é importante ter em mente que ninguém vai ler aquilo. Por isso eu chamo escrever à maneira de um diário. Porque ninguém além de você mesmo vai ler o que está naquelas páginas. Isso é importante porque você vai poder se soltar. Quanto mais você se solta, mais a sua voz fala nítida. E é importante capturá-la no momento em que ela está livre de julgamentos. É preciso entender algo: pouco importa se você escreveu para si mesmo, muita coisa se perde no caminho do cérebro ao papel e mais ainda se perde quando se trata de traduzir sentimentos em palavras. Por isso, quanto mais desinibida a sua voz estiver em se mostrar, mais fácil será para você, autor, captura-la e imortaliza-la no papel.

Outra maneira de fazê-lo (que tem ganhado popularidade mas que eu pessoalmente não faço) é escrever em forma de ditado. O que é isso? Você baixa um logicial no seu pc ou no telefone e fala com a máquina que vai traduzir sua fala verbal em palavras escritas.

Uma vez a voz capturada de papel, eu sugiro que você repita esse ritual de escrita durante algumas semanas para ouvir de fato o que você quer escrever. Leu certo: OUVIR o que você escreveu. Isso porque você está tentando capturar a sua própria voz. Baseado no que escreveu, na cadência da sua voz, tente escrever um texto para leitores. Tendo em conta tudo o que você já escreveu, mas sem repetir. Tente escrever algo que você sabe que será submetido à apreciação.

Atenção, não se preocupe em fazer perfeito. Haverá tempo para se aperfeiçoar e o que é importante é se lançar. Existe uma corrente invisível que nos carrega sem que precisemos nos esforçar.

É importante que você escreva esse texto (que pode ser uma cena, ou um conto, etc). Depois compare aos seus escritos. Diga a verdade do que pensa nesse texto. Se você criou um personagem mulherengo, diga o que ele pensa da sua maneira. Se criou um persongem fútil, mostre-o para o leitor em que o personagem é fútil. Quanto mais você disser, mais o leitor vai se sentir conectado ao autor da história e por conseguinte, maior será o seu poder de imersão, ou seja, a sua capacidade de fazer os seus leitores mergulharem no seu texto.

Existem recursos de estilo, figura de linguagem que reforçam ou enfraquecem o texto. Se quiser colocar esses elementos no seu texto é preciso ser tenaz e esperto. Use e abuse do show don’t tell. Atenção: se a sua voz refletir julgamento de valores, tons de racismo, apelo à violência, etc. o seu leitor se desinteressará pela sua voz. 

Mas eu gostaria de saber como você faz para descobrir a sua voz? Já tentou alguma técnica? Qual foi a que melhor funcionou? Conte-me. Eu também gostaria de saber qual é o seu maior interesse nesse tipo de assunto. Deixe nos sugestões e comentários.

Deixe uma resposta