Premissa universal: 

A premissa é uma técnica que aprendi durante a mentoria. Trata-se de um procedimento interno (ou seja, que é feito para os bastidores e deve ficar neles), para guiar a narração. É ela que vai ser a espinha dorsal do livro e vai orientar a mensagem que você quer que o leitor compreenda. Lembra-se do que foi dito sobre transformar? Toda boa história deve transformar o leitor que estava num estado A e vai para um estado B após a leitura do seu livro. Além de guiar a sua equipe interna (os produtores do livro como artigo mercadológico e explorável), a premissa interna fará emergir a linha de transformação do personagem; este exercício o guiará também como autor durante a redação, ajudando-o a escrever algo que se sustente.

Mas como executar bem uma etapa tão crucial? Um dos formatos admitidos (que uso para os meus romances) é o modelo composto de cinco partes.

Na primeira parte (1) você estabelece o personagem principal e aponta três características principais e distintivas. Com a prática, entenderá que pode atribuir até quatro características sabendo manipular a cadência narrativa, mas isso é algo para o futuro. Tais traços devem destacá-lo de qualquer outro personagem (essa é a hora de impactar o leitor com personagens bons, profundos e tridimensionais). É o momento de incluir informações como traços únicos, profissões, características que o destacam dos outros, de maneira a criar um personagem singular. 

Também faz parte da premissa (2) o cerne da história, a intriga, ou seja, (3) o que o personagem principal vai fazer, o que ele vai viver.

Enfim, na premissa universal estabelece-se o mundo no qual a história vai acontecer (4) e uma pergunta fundamental que sinalizará o rumo da transformação do personagem (5).

Complexo, não?

Usemos o exemplo da premissa universal do meu livro Mandala de Fogo para ver o processo na prática:

1. Líder nata, apaixonada pela causa e dona de uma idéia para transformar o arcaico agronegócio da família em Fazenda Orgânica e permacultura, a lésbica Lia

2. se vê compelida pelo pai Labão a honrar um antigo pacto e ir para o altar com Jacob, o amor da vida de Raquel, sua irmã. Ela não entende o porquê da obrigação e ignora (junto com Labão) que Jacob é filho do homem responsável pela lembrança de infância mais amarga que tinha com a irmã: uma violação, resultando num incêndio que mata a mãe, anos atrás. 

3. Apesar da mentalidade vanguardista, do bom-humor e da capacidade de seguir com a vida, no fundo do coração, será Lia a) capaz de encontrar forças para assumir a culpa pelo episódio do incêndio que marcou a sua infância e a da irmã, perdoando seu violador e a si mesma pela morte da mãe e b) aceitar que a liberdade de pensamento, qualquer que ele seja, é um direito de todos, inclusive da família com quem ela deve encontrar uma maneira de coexistir em harmonia 

4. num meio retrógrado e rural que ela busca a transformar

5. para poder aproveitar sem estresse o enorme amor pelo pai e pela irmã e a vida que é tão curta?

Eu aviso que essa premissa evoluiu muito a medida em que escrevi o livro. Até os personagens mudaram de nome. A história transformou-se muito, mas a mensagem inicial que a premissa transmitiu permaneceu a mesma: a questão do perdão (“será Lia capaz de encontrar forças para assumir a culpa pelo episódio do incêndio que marcou a sua infância e a da irmã, perdoando seu violador e a si mesma pela morte da mãe?”).

Escrever uma boa premissa narrativa é uma etapa fundamental, seja para um livro de ficção ou de não-ficção. É preciso estudar as bases fundamentais do storytelling ou da arte de contar histórias. 

Além de estabelecer a base da transformação que o personagem e o leitor viverá, a premissa universal abre vias para continuações. Por exemplo, no caso do Mandala de Fogo, a continuação, Mandala de ar, prevista para dentro de alguns meses, tratará com mais profundidade a questão do perdão.”

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