Tem gente que nem chega a escrever o seu livro por medo de um único momento: a edição. Isso porque esta fase do processo tira o escritor da sua zona de conforto, o que é, todos sabemos, chato. Se você está nesse grupo que guarda o manuscrito no fundo da gaveta porque assim ninguém encontra, eu tenho DUAS notícias boas:

  • a edição é apenas uma fase na publicação de um livro e
  • existe uma maneira de viver esse momento de maneira serena.

Quer ouvir mais de uma escritora com dez anos de experiência em escrever? Continua lendo porque tenho certeza que no fim deste artigo, você vai repensar o conceito da edição.

A primeira coisa importante a saber é que a edição serve apenas um propósito: melhorar o texto e proporcionar ao seu leitor a melhor experiência de leitura possível. Porque se você não sabe disso, deixa eu lhe explicar: texto bom de primeira só existe na televisão.

Tudo começa com uma ideia. Eu falo mais a esse respeito no meu livro Como escrever um livro em 3 meses. A idéia está viva, se mexe e pede para ser escrita. O escritor se posiciona tal um médium através do qual a ideia, tal um bebê que usa a barriga da mãe para se gestar e nascer, se serve da cabeça e das mãos do escritor para vir ao nosso mundo material. E ainda que você a tenha visto de outra maneira na sua cabeça, e não como lhe sugere o seu editor, ninguém nessa vida faz coisa alguma sozinho.

Por esse motivo, eu lhe direi algo que talvez doa, mas creia (eu já estive lá!), as alterações propostas pelo editor apenas melhoram o seu texto, transformando-o de cristal em diamante valioso. Dependendo da maneira como você escolheu publicar seus livros, alguém vai arcar com os custos que envolvem a produção e distribuição de um livro. Se o que você publica de maneira tradicional e escreveu algo sem grande valor comercial, é a editora que arca com os custos. É normal que ela queira também dar a sua palavra. 

Outra que você precisa entender é que o seu livro submetido para apreciação pública, não lhe pertence mais. Como um filho colocado no mundo, depois dos seus dezoito, ele dá adeus aos pais e vai viver a vida. Enquanto uma história está sob a tutela do escritor, este dá o seu melhor para educá-la sem se descabelar. Mas ao irromper a maioridade, o filho cai no mundo. Não se pode possuir alguém, exatamente como não se pode possuir uma ideia.

Por esse motivo, escrever é um ato de desenvolvimento pessoal: o autor trabalha entre outros a noção de posse do texto. Veja bem, não estou a dizer que os autores não detém direitos sobre o que criam. Nada disso. Estou dizendo que a apreciação pública faz que um texto entre ou não no patrimônio da humanidade.

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Enquanto um texto não for para a edição, um autor deve fazer o seu melhor possível. Isso significa que:

  • Um texto deve ser escrito sob a noção de que não é do autor e sim do público. A partir da segunda revisão, sugiro que escreva sob a luz dessa estrela-guia e eu te garanto que a segunda versão sairá melhor do que a primeira. A terceira será melhor que a segunda e assim por diante.
  • Se tiver dificuldade em averiguar se o texto é para você ou para o seu leitor, faça uma pesquisa da palavra “eu” por oposição ao termo “você”. Ficará chocado com o resultado.
  • Cortar aqueles darlings que você tanto ama. Darlings são aqueles trechos que saíram sozinho da cabeça para o papel. Pois bem, corte sem pena, como você mutilaria o pinto de um estuprador. Esses trechos são para você e não para o leitor. A sua capacidade de poder cortar esses excertos que mais falam com você do que com o seu público leitor determina a sua maturidade em termos de autor. E corte-os em primeiro lugar, antes de enviar o texto para o editor. Isso vai te ajudar a se desconectar do texto, vai te despersonalizar.
  • Dependendo do seu público-alvo, você será obrigado a adotar um estilo de escrita ou outro. Faça uma pesquisa antes para saber como deve se dirigir ao seu público.
  • Entenda de uma vez por todas que a voz do seu editor é a voz de Deus. Como a sua mãe que insiste que coma os tronquinhos de brócoli porque faz bem, engula os sapos e faça as alterações que ele sugerir. Ele tem um olhar de fora e completamente desapegado do texto. A voz do editor é objetiva.
  • Submeta seu texto ao público beta (dos leitores beta, veja este artigo) e ouça o que eles têm para dizer. Insista para que eles lhe digam seja qual for a forma e o tom que vão lhe dizer, eles devem ser honestos. Essa transparência é fundamental.
  • Conecte-se com seus personagem num plano íntimo. Como autor, você deve saber se aquele personagem da sua cena hot tem ou não pinto pequeno, se aquele carro conversível se deve ou não ao fato de que ele tem uma bola a menos. Por que a sua personagem super sexy sofreu bullying na escola porque tinha um nariz muito grande. Por que a melhor amiga do herói fantasia sobre fazer amor com ele numa piscina de sangue. Saiba disso. Em detalhe. Entre em contato íntimo com seus personagens. Porém ao enviar o texto para a edição, trate-o como um estranho que vem bater na sua porta no domingo as sete horas da manhã.
  • Intercale entre uma revisão e a outra um intervalo de uma a duas semanas. O Stephen King fala de três meses pelo menos, mas para mim não é necessário. Dependendo do seu grau de envolvimento com os personagens e com a trama (como eu digo, ele deve ser intenso e íntimo), duas semanas são suficientes para acalmar os líquidos da criatividade, remexidos por inteiro na sua cabeça durante a redação. 

E não se esqueça de que um escritor precisa de ajuda durante a confecção de um livro. Não há vergonha nenhuma nisso. E você? Diga-me nos comentários como você se sente durante a edição de um livro ou como se sente ao pensar nesse processo.

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