Existem algumas coisas importantes a saber acerca do seu personagem principal. A primeira é talvez a mais importante de todas: o seu personagem principal deve ser amado pelo público leitorado desde a sua primeira aparição na história. Em termos práticos, isso significa que o seu personagem deve saber conquistar o leitor desde as primeiras linhas. Não se esqueça de que o leitor atual é constantemente distraído por telefone, televisão, chat e pela sua vida simplesmente.

Algumas dicas práticas para aprender a fazer isso:

  1. Comece com uma ação de sobrevivência executada pelo personagem, o que causou, sem que ele quisesse, um mal irremediável. De preferência, esse mal irremediável constitui o nó dramático da história.
  2. Não demore mais de 4 linhas para comunicar ao seu leitor o nome do personagem. Senão você corre o risco de aborrecimento do leitor que lê algo sem saber quem é o personagem. Para continuar lendo, o leitor tem que se importar com o seu personagem principal, senão não vai querer saber o que vai acontecer com ele.

Se existe algo importante para a popularidade do seu livro e para que ele alcance cada vez mais pessoas: o seu público leitoral deve se preocupar com o personagem. Esse tipo de reação é atingido através de suas emoções principais: 

  1. O público leitorado gosta do personagem e por isso se importa com ele;
  2. O leitor não gosta do personagem mas ele executa ações que o tocam de alguma forma e, por esse motivo, o leitor segue os seus feitos e/ou
  3. O leitor sente pena do seu personagem por X motivos. Pense no Harry Potter por um instante. A JK Rowling colocou tudo o que podia para fazer o leitor se importar com o Harry: primeiramente, ele é um órfão, de dois pais. Isso é algo que inevitavelmente leva o seu leitor a gostar do personagem. O Harry também era maltratado pela própria família e sofria bully na escola dos trouxas. Mas quando ele se descobre bruxo, é que o leitor passa a gostar mesmo do garoto: ele é um bruxo do bem porque estabeleceu a paz no mundo bruxo.

Um grande exemplo da importância do personagem principal é o novo filme da Cruella. Se for examinar de perto como o estúdio equiparou o personagem dessa megera para fazer o espectador se importar e gostar dela é incrível. Um desafio em tanto ao meu ver. Como nos dias de hoje, onde se fala de natureza, de não matar os animais nem para comer, eles transformaram a Cruella Devil em personagem de quem o leitor sente pena?

  1. Cruella é orfã de pai. Ela matou sem querer a sua mãe.
  2. Cruella foi maltratada pela vida, mas uma vez que lhe deram uma chance, ela tornou-se uma trabalhadora competente. Tão competente que superou sua chefe, a Baronesa.
  3. Cruella tinha amigos que se importavam com ela e que a respeitavam.
  4. Cruella era no início amiga dos animais.

Mas o golpe de mestre desse estúdio, a sacada genial foi ao meu ver o último ponto:

  1. Cruella foi vítima das circunstâncias da vida. Extraíram dela, como pessoa, o seu último elixir de felicidade e, por conseguinte, ela se transformou no que é a Cruella Devil dos desenhos animados: torturadora de animais que toma prazer em causar o sofrimento dos bichinhos. O resto, o espectador já sabe e cabe a cada um tirar as suas próprias conclusões.

Aqui vão algumas maneiras práticas de fazer o seu leitor se importar com o seu personagem:

  1. O personagem é órfão;
  2. O personagem é pobre e maltratado;
  3. O personagem têm valores incorruptíveis e permanece fiel a quem ele é;
  4. O personagem não representa uma pessoa mas sim um conjunto de valores coletivos. Exemplo: o personagem incarna a corrupção ou a luta pela justiça. Pense em Robbin Hood, por exemplo que rouba dos ricos para dar aos pobres e
  5. O personagem desde cedo foi vítima de uma circunstância totalmente fora do seu controle (pense na ação de sobrevivência que ele teve que executar, por exemplo, matar alguém para escapar, salvar alguém da sua família tendo que sacrificar outra pessoa, etc.)

Algumas astúcias para deixar o seu personagem inconfundível com a massa:

  1. Dê-lhe uma característica física que tenha a ver com o que ele vai viver na história. No meu mais novo livro, “A Grande Mandala“, a personagem Sol tem uma marca de nascença no rosto. Essa marca tem a ver com o que aconteceu com ela mais para frente no livro.
  2. Dê-lhe uma característica que ele nunca perderá ao longo da história, por exemplo, ele só usa um boné azul, ou ele tem medo de alturas. Pense em como os escritores de “The mentalist” jogaram com o espectador ao dizer que o serial killer Red John tinha medo de alturas e num episódio onde a gente está morrendo de curiosidade de saber quem é o tal Red John, apenas um dos suspeitos tem medo de altura… Não darei spoiler aos que não viram esta série.

Além da famosa jornada do herói que a gente já está careca de saber, entretanto uma ferramenta poderosa para o storytelling, o que fazer para que o seu personagem mantenha o leitor grudado nas páginas a vir? A resposta é mais fácil do que a gente pensa:

Se o seu personagem está afundado numa trama, faça-o afundar cada vez mais. Uma vez estabelecida a conexão entre personagem e leitor, comece a enfiar o seu personagem numa piscina de lama, afundando-o cada vez mais na merda. A sua história acaba quando o seu personagem consegue sair desse “merdier” todo, como se diz em francês. Acabou o merdeiro do personagem, acabou a história e, por conseguinte, a razão do leitor de continuar virando as páginas. Quanto a você, caro amigo e camarada de profissão, o seu trabalho com esse romance encerrou-se. Pode passar para o outro merdeiro que, se fizer bem seu trabalho, vai ter mais leitores querendo ler a merda seguinte do seu personagem.


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2 comentários em “O personagem principal

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