O que eu aprendi nos meus quatro anos de estudo numa das maiores universidades da Europa, a Sorbonne, é que para se criar um texto acadêmico é preciso estabelecer uma problemática em torno da qual se articulam os argumentos do texto. O método é fixo, pode parecer difícil e tomar um certo tempo para se aprender, mas uma vez a lógica argumentativa compreendida, este método pode ser aplicado para todos os textos acadêmicos que você deseja escrever. Atenção: a metodologia varia em função do tipo de texto que você estiver escrevendo, por isso, vejamos primeiro qual o tipo de texto que podemos escrever para a academia.

  1. O resumo
  2. O relatório
  3. O artigo
  4. A dissertação
  5. O trabalho de pesquisa para conclusão de curso
  6. A tese 

Tais tipos de texto também podem ver sua estrutura alterada em função do domínio do conhecimento para o qual se escreve, por exemplo, um texto filosófico na maior parte do tempo será composto de tese, antítese e síntese enquanto que um texto histórico ou geográfico pode se articular em torno da linearidade temporal ou em torno de uma temática em específico. No meu caso, eu estudei literatura e política externa por isso, falo para estes dois domínios do conhecimento acadêmico, mas também darei insights para as humanidades em geral (história, geografia, política, filosofia, etc) porque a metodologia permanece a mesma, com poucas variações.

Começecemos pelo resumo. No meu mais novo livro Como escrever um livro em três meses, eu dedico uma seção inteira a esta etapa uma vez que ela integra a metodologia que eu desenvolvi e que uso para escrever rapidamente os meus livros. Assim, colocarei um trecho deste livro que se você desejar pode obter gratuitamente através do link.

O resumo: No meu livro Como escrever um livro em três meses, eu falo sobre duas fases de resumo que são importante durante a concepção de um livro. Vejamos:

Resumo longo:

Um resumo longo, como o próprio nome explica, é um espaço para se resumir a história. Conta-se aqui do que ela vai tratar e quem são os personagens. Nessa parte também podemos descreve-los brevemente, contar quem faz o que, com quem e porquê. É um espaço de liberdade, pois a partir dele montaremos as bases até chegar na famosa premissa universal, que será o cerne, a coluna vertebral do livro. Para esta fase, podemos contar em média 3000 palavras.

Trata-se de um espaço de duplo gume porque podemos ser livres ao mesmo tempo em que a história deve ser limitada. Como todo resumo, contaremos aqui a intriga mais “crua”, em seu aspecto mais primitivo, tal qual a “enxergamos” no nosso pensamento. Digo enxergamos porque esse é o primeiro passo para se escrever uma história que toque o leitor: criar uma intriga real, orgânica, palpável, cujos personagens adquirem vida e saltam para fora do papel. 

Essa história pode ou não ser fictícia, mas ela deve ser real, ou seja, deve existir no seu pensamento ao ponto de se confundir com a realidade, ao ponto que os leitores comentem sobre os atos dos personagens, como se estes existissem de verdade. Dou um exemplo: ao criar a Kundalini, personagem principal da saga do Mundo das Mandalas, ela não se chamava assim. Eu passei quase três anos escrevendo sobre ela todos os dias, estudando os seus comportamentos, as suas características e reescrevendo tudo o que eu já sabia, simplesmente para alimentar o hábito da escrita. Pouco a pouco, ela foi mudando de nome, mudando de aspecto, até assumir a identidade definitiva de Kundalini. Deste momento em diante, ela não mudou mais. Como uma escultura esculpida em rocha sólida e dura, ela existe, fixada no papel.

Com o exercício do resumo longo, você condensa tudo o que desenvolveu em um estágio anterior à escrita e resume em três mil palavras. Não se preocupe com a forma. É importante aqui ter uma percepção dos personagens e eventos principais da história, dos momentos de gancho (ou como dizemos no léxico do mundo da publicação, o cliff-hanger) e da maneira como você ligará os acontecimentos; em outras palavras, da organicidade da história. 

Pense no nascimento,  crescimento e morte de uma planta. Esse ciclo responde a uma lógica orgânica, biológica. Assim deve evoluir a sua história: tal uma planta ou um organismo vivo que nasce, se desenvolve, morre e se decompõe. Em cada fase do processo há transformação do personagem. Em cada etapa, acontece algo que leva à próxima.

Resumo curto:

Nessa fase, você enxugará o resumo longo, deixando-o com mais ou menos 100 palavras. Este resumo é o cerne da história, e a sua capacidade de fazê-lo bem-feito vai determinar a maturidade da narrativa, ou seja, se ela está pronta para ser escrita ou se é necessário voltar à fase do desenvolvimento.

O trabalho do resumo curto pode se estender por dias e até semanas. E eu já aviso de antemão que você vai se descabelar. Mas calma! O segredo é se liberar da pressão de querer fazer perfeito e simplesmente fazer, sabendo que nada sai perfeito da primeira vez. Escrever é reescrever. Como pintar um quadro bem-feito, a redação de um livro se faz em camadas. Este método de confecção funciona bem aqui. Tente fazer uma versão do resumo; deixe descansar. No outro dia, volte e mexa no que fez. Faça isso por vários dias até sentir que a história atingiu o ponto de saturação, como uma colher extra de açúcar que não dissolve mais n’água, não importa o quanto você insista em mexer.

Uma vez mais, a palavra é sentir. Você é o responsável por isso e ninguém pode fazê-lo no seu lugar: sentir o recito, sentir a estória. Uma dica: quando estiver nesse estágio de produção, saberá que não precisa mais enfeitar o personagem. Ele fará isso sozinho.

Como escrever um livro em 3 meses, Nayara Lemes.

O relatório:

O objetivo de um relatório é reunir os principais eixos de um ou mais textos com o objetivo de organizá-los de maneira sumária em torno de um único eixo principal que pode ser temporal ou temático. 

O artigo:

Pode ser jornalístico, científico ou de uma revista. Em função da modalidade de publicação, o artigo tem um papel diferente, mas o seu objetivo principal permanece: estabelecer fatos reais sobre um problema/situação em específico. No caso da mídia, um artigo jornalístico apresenta os fatos. Dependendo da inclinação de direita/ esquerda ou neutra do jornal, o artigo apesar da viés objetiva, passa pelo crivo político em questão. Nesse sentido, nenhum texto, por mais objetivo que se queira, pode ser inteiramente desprovido de opinião. 

Um artigo científico tem por objetivo tratar sobre procedimentos de experimentação científica que após fases de testes averiguam determinados fatos e apresentam conclusões. É o caso de artigos sobre pesquisas genéticas, sobre a evolução do coronavírus, por exemplo. O objetivo de um artigo é nesse sentido trabalhar para o estabelecimento ou não de teorias.

A dissertação:

Este texto para mim é, de longe, o mais difícil e o mais fascinante. Foi um método que eu demorei quase dois anos para aprender, mas que aproveitei cada momento do processo. Por esse motivo, tratar-lo-ei num artigo específico de blog. Darei aqui apenas algumas pistas para reflexão.

Como a palavra diz, dissertar é, segundo o dicionário CNRTL de Língua Francesa, “um exercício escrito (…) que consiste numa discussão argumentada sobre um assunto dado”.

Assim, ao receber uma temática, o estudante deve ser capaz de estabelecer uma problemática e estruturar um plano de desenvolvimento para escrever seus argumentos. A dissertação deve se estruturar de maneira equilibrada (ou seja, as três partes – introdução, desenvolvimento e conclusão – têm formas que não variam muito nem em tamanho e nem em estrutura paragrafal)  porém é crescente em termos de profundidade temática.  Isso quer dizer que, idealmente, o processo argumentativo vai do que é aparente ao segundo grau de interpretação, terminando na análise simbólica da problemática. 

Como eu falei, este exercício é passionante porém algum treino é necessário para o domínio completo. Caso você queira, inscreva-se na minha lista de difusão para receber exercícios sobre como fazer uma dissertação e ter um fedd-back personalizado sobre um texto seu em questão.

O trabalho para a conclusão de um curso na faculdade:

Este situa-se no eixo prolongado do artigo, do relatório e termina, ao meu ver, na dissertação, na medida em que leva o aluno ao exercício do pensamento e da argumentação. A sua função se compara a um rito iniciático ao ritual da pesquisa que o aluno almeja começar durante os cursos de mestrado e doutorado.

Eu fiz dois trabalhos de conclusão de curso: um sobre a integração energética na América Latina e outro sobre as bruxas literatura medieval francesa. Cada um destes textos tinha estruturas diferentes porém partem do mesmo ponto: o estabelecimento de uma problemática em torno de um tema dado, a apresentação dos seus argumentos baseados em sua leitura e enfim a conclusão. Cabe ao estudante permanecer na mesma linha de pesquisa na sequencia dos estudos ou não. A dissertação francesa e o trabalho de conclusão de curso brasileiro se assemelham muito, mas têm uma diferença essencial: a divisão capitular. Ao contrário do TCC, pode-se muito bem escrever uma dissertação curta em quatro ou cinco páginas.

Enfim, a tese:

A tese é, de longe, o mais difícil, na medida em que, neste momento da vida de um estudante, ele dá a sua verdadeira e genuína contribuição para o mundo acadêmico. Por esse motivo, escrever uma tese é algo que se faz em anos e após muito estudo. Uma tese deve ser inovativa, respeitar a ética da comunidade acadêmica e cientifica e trazer progresso para a sociedade. Das teses, por exemplo, formaram-se correntes de pensamento como as células-tronco ou a nano-tecnologia. Com a defesa de uma tese, obtém-se o título de doutor, sendo o título mais elevado, com algumas exceções, em medicina por exemplo.

2 comentários em “Tipos de textos acadêmicos

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